quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Batismo no Espírito Santo: experiência definida

Experiência do batismo no Espírito Santo
Pentecostes inaugura um novo regime para a vida do homem em relação a Deus e aos irmãos: saímos do regime da lei e entramos no regime do Espírito. A experiência de Pentecostes constitui de certa forma, o parâmetro para a experiência que chamamos de batismo no Espírito Santo. Experiência narrada também em outros textos dos Atos dos Apóstolos e sempre acompanhada de manifestações de ordem carismáticas, como louvor, línguas, profecias (Atos 2,4; 10,46; 19,6).

O batismo no Espírito Santo é uma experiência definida (“como podem ver e ouvir” – Atos 2,33) que introduz a vida no Espírito, e que realiza em nós uma mudança permitindo que experimentemos Sua presença e operação em nós.

O que é, então, ser batizado no Espírito? Talvez a descrição mais clara seja dizer que no batismo no Espírito, o Espírito vem de um modo que a pessoa batizada o sabe. Como resultado desta vinda, ela experimenta um novo contato com Deus. Não só o Espírito vem à pessoa de um modo novo, mas opera nela uma mudança. A sua vida se torna diferente, porque o seu relacionamento com Deus se modificou. Deus está nela de uma maneira que não estava antes. Deus fez nela a sua morada de um modo novo, produzindo, muitas vezes, uma sensação de presença concreta de Jesus e de poder.

Este sentimento de presença concreta e de fato, corresponde à percepção da proximidade de Jesus como Senhor. Freqüentemente este sentimento de presença é acompanhado de uma consciência de poder, mais especificamente — o poder do Espírito Santo.
Aplica-se aqui o texto de Atos 1,8 que se refere ao Espírito Santo como experiência de força ou poder (Vulgata) e ainda no discurso na casa de Cornélio, Pedro se refere a esta experiência como unção do Espírito e de poder (cf At 10,38).

“Este poder é experimentado em relação direta com a missão. É um poder que se manifesta como uma fé corajosa (parresia), animada por um novo amor que nos torna capazes de empreender e de levar a cabo grandes coisas pelo Reino de Deus, muito acima das capacidades naturais” (Heribert Mühlen).

Uma experiência até emocional

A experiência religiosa não é fundamentalmente um ato da pessoa humana, é antes a ação de Deus no homem. Portanto não se refere originariamente à emoção ou à elevação emocional. Muitos não conhecendo a experiência que se faz na Renovação Carismática confundem a expressão de uma “experiência profundamente pessoal com um sentimentalismo superficial”.

A experiência da fé se apodera do homem por inteiro: corpo, inteligência, afetividade, emoções... A modernidade situou o encontro com Deus no nível de uma fé, concebida por muitos de uma forma puramente intelectual. A experiência da fé inclui as emoções. A tentativa de separar a razão das emoções, como se estas fossem sem valor, é reducionista. Experiência, no contexto desta reflexão, é a ação de Deus no homem e que produz também uma experiência emocional, por ser o homem também constituído de emoções.

Experiência definida

A experiência de fé, como a descrevemos aqui, verifica-se, muitas vezes, num tempo determinado, com data e local conhecidos. Heibet Mühlen (Fé cristã renovada) chama a esta experiência de “experiência de impacto ou de crise”. Embora a experiência da fé possa vir pelo crescimento, no qual a presença ativa do Espírito Santo recebido no batismo se torna consciente através de um processo de amadurecimento, sendo essa a experiência mais comum aos católicos romanos, para a qual contribuíram muitas “escolas de espiritualidade” e as catequeses a respeito do esforço pessoal e ascese.

Nós católicos romanos não temos familiaridade com a experiência de impacto ou de crise, embora seja ela conhecida. Apesar de ser uma via autêntica de encontro com Deus, deve-se reconhecer que existe aí uma possibilidade de ilusão.

Alguns têm medo de uma experiência que pode ser fortemente emocional, embora autêntica, devido aos elementos subjetivos que contém e a conseqüente possibilidade de auto-ilusão. É verdade que certa reserva é indicada em matéria de experiência religiosa. “Mas um ceticismo sistemático nesse domínio privaria a Igreja do aspecto experiencial de sua vida diária no Espírito, aliás, privaria a Igreja de toda a tradição mística. O temor à experiência religiosa não deve, pois, levar à rejeição do que faz parte integrante da vida plena da Igreja

segunda-feira, 5 de julho de 2010

A esperança da parusia


Na primeira Carta aos Tessalonicenses São Paulo fala do regresso de Jesus, chamado parusia, advento, nova, definitiva e manifesta presença (cf. 4, 13-18). Aos Tessalonicenses, que têm dúvidas e problemas, o Apóstolo escreve assim:

"Com efeito, se cremos que Jesus morreu e ressuscitou, cremos igualmente que Deus, por meio de Jesus, com ele conduzirá os que adormeceram. Pois o Senhor mesmo, à voz do arcanjo e ao som da trombeta de Deus, descerá do céu. E então ressuscitarão, em primeiro lugar, os que morreram em Cristo; depois, nós os vivos, que ainda estivemos em vida, seremos arrebatados, junto com eles, sobe as nuvens, ao encontro do Senhor, nos ares”. (4,14.16-17).

Paulo descreve a parusia de Cristo com tonalidades vivas como nunca e com imagens simbólicas, que, contudo transmitem uma mensagem simples e profunda: o nosso futuro é "estar com o Senhor"; como discípulos, na nossa vida já estamos com o Senhor; o nosso futuro, a vida eterna, já começou.

Na segunda Carta aos Tessalonicenses, Paulo muda de perspectiva; fala de acontecimentos negativos, que deverão preceder o final e conclusivo. Não nos devemos deixar enganar diz como se o dia do Senhor fosse deveras iminente, segundo um cálculo cronológico:

"Quanto à vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo, e à nossa reunião juntodele, nós VS pedimos, irmãos, que não vos deixeis abalar, assim tão depressa, em vossas convicções, nem vos alarmeis com alguma pretensa revelação do Espírito ou alguma instrução ou cata atribuída a nós e que desse a entender que o dia do Senhor já está chegando. Que ninguém vos iluda de nenhum modo. É preciso que, primeiro, venha a apostasia e se revele o Iníquo, destinado a perdição...” (2,1-3)

A continuação deste texto anuncia que antes da vinda do Senhor haverá a apostasia e deverá ser revelado um não bem identificado "Iníquo" (2, 3), que a tradição chamará depois o Anticristo. Mas a intenção desta Carta de São Paulo é antes de tudo prática; ele escreve:

"Com efeito, quando estávamos entre vós, demos esta regra: ‘Quem não quer trabalhar também não coma’. Ao, temos ouvido falar que entre vós, há alguns vivendo desordenadamente, sem faze nada, mas intrometendo-se em tudo. A essa pessoas ordenamos e exortamos no Senhor Jesus Cisto que trabalhem tranquilamente e, assim, comam o seu próprio pão". (3,10-12).

Noutras palavras, a expectativa da parusia de Jesus não dispensa do compromisso neste mundo, mas ao contrário cria responsabilidade face ao Juiz divino acerca do nosso agir neste mundo. Precisamente assim cresce a nossa responsabilidade de trabalhar em e para este mundo.

Vemos a mesma coisa no Evangelho dos talentos, onde o Senhor nos diz que confiou talentos a todos e o Juiz pedirá contas por eles dizendo: Fizeste-los frutificar? Portanto a espera da vinda exige responsabilidade por este mundo.

A mesma coisa e o mesmo nexo entre parusia vinda do Juiz/Salvador e o nosso compromisso na vida aparece noutro contexto e com novos aspectos na Carta aos Filipenses. Paulo está na prisão e espera a sentença que pode ser de condenação à morte. Nesta situação pensa no seu futuro estar com o Senhor, mas pensa também na comunidade de Filipos que tem necessidade do próprio pai (Paulo). O Apóstolo exclama: "Para mim, de fato, o viver é Cristo e o morrer, lucro. (Flp 1,21)
Mas a seguir apresenta o dilema: se o viver na carne lhe dá ocasião de trabalho frutífero, não sabe bem o que escolher. O seu desejo é partir e estar com Cristo, pois isso é muito melhor para ele, mas o permanecer vivo é mais necessário à comunidade – Igreja. Acaba por se convencer que permanecer é mais proveitoso para a fé da comunidade e a glória de Cristo (cf. Flp 1,21-26)

Paulo não tem medo da morte, ao contrário: de fato ela indica o ser completo com Cristo. Mas Paulo participa também dos sentimentos de Cristo, o qual não viveu para si, mas para nós. Viver para os outros se torna o programa da sua vida e por isso demonstra a sua perfeita disponibilidade à vontade de Deus, ao que Deus decidir. É disponível, sobretudo, também no futuro, a viver nesta terra para os outros, a viver para Cristo, a viver para a sua presença viva e assim pela renovação do mundo. Vemos que este seu ser com Cristo gera uma grande liberdade interior: liberdade diante da ameaça da morte, mas liberdade também diante de todos os compromissos e sofrimentos da vida. Está simplesmente disponível para Deus e é realmente livre.

Considerando o que refletimos podemos concluir que são três as atitudes fundamentais do cristão em relação às coisas derradeiras: a morte, o fim do mundo.

1. Porque temos certeza de que Jesus ressuscitou, está com o Pai, e precisamente assim está conosco, temos a certeza, somos libertados do receio. Era este um efeito essencial da pregação cristã. O medo dos espíritos, das divindades estava difundido em todo o mundo antigo. E também hoje muitos têm medo dos espíritos, dos poderes nefastos que nos ameaçam. Cristo vive, venceu a morte e venceu todos os poderes. Vivemos com esta certeza, com esta liberdade, com esta alegria. É este o primeiro aspecto do nosso viver em relação ao futuro.

2. Cristo está comigo e como em Cristo o mundo futuro já começou, isto dá também a certeza da esperança. O futuro não é uma escuridão na qual ninguém se orienta. O cristão sabe que a luz de Cristo é mais forte e por isso vive numa esperança não vaga, numa esperança que dá certeza e coragem para enfrentar o futuro.

3. O Juiz que volta é ao mesmo tempo juiz e salvador deixou-nos o compromisso de viver neste mundo segundo o seu modo de viver. Ele nos confiou os seus talentos. Por isso temos responsabilidade pelo mundo, pelos irmãos diante de Cristo, e ao mesmo tempo também certeza da sua misericórdia. As duas coisas são importantes. Não vivamos como se o bem e o mal fossem iguais, porque Deus é misericordioso. Isto seria um engano. Na realidade, vivemos numa grande responsabilidade. Temos os talentos, somos encarregados de trabalhar para que este mundo se abra a Cristo, seja renovado. Mas mesmo trabalhando e sabendo na nossa responsabilidade que Deus é juiz verdadeiro, temos também a certeza de que este juiz é bom, conhecemos o seu rosto, o rosto de Cristo ressuscitado, de Cristo crucificado por nós. Por isso podemos ter a certeza da sua bondade e ir em frente com muita coragem.

São Paulo na conclusão da sua primeira Carta aos Coríntios repete e coloca nos lábios também dos Coríntios uma oração que surgiu nas primeiras comunidades cristãs da área da Palestina: Maraná, thá!, que literalmente significa "Vinde, Senhor Jesus!" (16, 22). Podemos também nós, rezar assim? Parece-me que é difícil rezar sinceramente essa oração que pede a nova Jerusalém, para que cheguem o juízo derradeiro e o Juiz. Penso que se nós não ousarmos rezar assim sinceramente por muitos motivos.

Deveríamos dizer, com a primeira cristandade: "Vinde, Senhor Jesus!". Porque queremos que termine este mundo injusto. Isso não que dizer que desejamos o fim das coisas, mas sim que queremos que o mundo seja fundamentalmente mudado, que comece a civilização do amor, que venha um mundo de justiça, de paz, sem violência, sem fome. Queremos tudo isto e como poderia acontecer sem a presença de Cristo? Sem a presença de Cristo nunca chegará um mundo realmente justo e renovado. Por isso podemos e devemos dizer também, com grande urgência e nas circunstâncias do nosso tempo: Vinde, Senhor Jesus! Maraná thá!.